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Português – língua una e indivisível?
Essa visão de uma língua portuguesa sacralizada, una e indivisível é conversa mole pra boi dormir. Toda língua se compõe de um conjunto de falares regionais. Em outras partes do mundo, essas variantes se chamam dialetos – palavra que nos horroriza. Mas não há como escapar da realidade. O campônio e o sertanejo
Ponham a conversar um campônio do concelho de Freixo de Espada à Cinta (região de Bragança, norte de Portugal) e um sertanejo de Riacho das Almas (região do agreste, Pernambuco). Eu ficaria espantado se a conversa fosse além de um educado bom-dia. Não vão se entender. Vão acabar se comunicando por gestos. Isso tende a demonstrar que os falantes de nossa língua, além de se exprimirem cada qual em seu dialeto, nem sempre se compreendem. O português é formado por dialetos nem sempre intercompreensíveis.

A língua da escola e a língua de casa
Os falares de Portugal estão próximos do português oficial. Em todo caso, bem mais próximos que as variantes implantadas no Brasil. O fato de ser negada até a existência de nossos dialetos contribui para a grande insegurança linguística de que sofremos. A língua de casa – que, por sinal, é o nome deste blogue – não bate com a língua oficial. Dado que não se admite a existência dessa língua de casa, chegamos todos à escola, aos 7 anos de idade, falando ‘errado’. Passamos a ter aulas de uma língua que, embora nos seja estrangeira, nos é vendida como língua materna.

Insegurança linguística
O nó nas cabecinhas começa exatamente nessa hora. E a desagradável impressão de estar ‘falando errado’ nos persegue pelo resto da vida. É tremenda injustiça porque ninguém jamais faz erro nenhum ao falar a língua materna. Ninguém, nem o nativo do grotão mais inculto. Não falamos ‘errado’. O fato é que aprendemos uma língua em casa e iniciamos, na escola, o aprendizado de uma segunda. Elas se parecem muito, daí a dificuldade que muita gente tem em entender que se trata de dois dialetos diferentes. No dia em que a existência dessa diglossia for admitida, as coisas hão de melhorar. A insegurança vai desaparecer e o próprio aprendizado da língua oficial será mais bem tolerado. A criançada vai entender que aquela matéria faz sentido.

Falar e escrever a mesma língua
Tenho muita inveja dos franceses, que falam em casa uma língua idêntica à que aprendem na escola. As duas se encaixam perfeitamente. Outros povos há, como os italianos e os alemães, que já sabem, desde pequeninos, que vão passar a vida falando duas línguas diferentes: o dialeto em casa e com os amigos, e a língua oficial na escola e no trabalho. Quanto a nós, ficamos no meio do caminho. Dado que o dogma de língua una e indivisível domina nossa visão, não temos noção de ser bilíngues. E passamos a vida com a incômoda insegurança dos que têm medo de errar.

Escrever sem dicionário
Sem ter dicionário e gramáticas ao alcance da mão, um brasileiro tem dificuldade para escrever na variante oficial. O mesmo não acontece com um francês. E não é porque eles sejam mais inteligentes ou mais cultos que nós. É que têm a sorte de falar, de instinto, a língua oficial. Onde a gente hesita, pra eles, é moleza.

Birras e implicâncias
Este blogue não pretende ensinar gramática a ninguém. Não estou aqui pra dar aulas de português, mas pra falar de minhas birras e implicâncias. Acredito que um falar, seja ele qual for, tem de ter lógica. Uma frase, seja em que língua for, tem de ter sujeito, verbo e objeto. Nas línguas flexionadas, como a nossa, as concordâncias devem ser respeitadas. Tenho horror a essas regras ortográficas, que mudam a toda hora. Com o AO90, já estou no terceiro aprendizado da escrita oficial portuguesa. Faço o possível pra escrever direitinho, mas repito meu desabafo: detesto nossas regras ortográficas, todas capengas, muitas ilógicas, algumas até contraditórias.

Escrita fonética ou etimológica?
Nossa grafia ficou no meio do caminho, indecisa entre a escrita meramente fonética e reminiscências de etimologia. Por que herdar se escreve com agá? E por que, em deserdar, o agá desaparece? Um doce pra quem descobrir!

Língua rica – adequação vocabular
Nossa língua oficial é rica. Há palavras pra exprimir praticamente tudo. Por isso, dou grande importância à adequação vocabular. A palavra certa no lugar certo, esse é o lema. Procuro evitar palavras ônibus, dessas que servem pra tudo. Quando as vejo usadas em algum jornal, não deixo passar batido.

Etimologia
Gosto de curiosidades relativas à língua. A etimologia – a arte de explicar a origem e a evolução das palavras – me apaixona.

Fecho
Muito mais podia dizer, mas não quero cansar ninguém logo nesta página que tem o nome de «About» – palavra que, se tupiniquim não é, explica bem o que pretende dizer.

Sou José Horta Manzano. Vivo fora do Brasil há muitas e muitas décadas, desde quando era mocinho. Só aqui na Suíça, já passei 40 anos. Sem contar o resto.

Se quiser entrar em contacto comigo, não me procure em Facebook, Twitter nem outra ‘rede social’. Não vai me encontrar. Funciono à moda antiga. O mais longe que consegui chegar foi ao email. Escreva-me, que me dará muito gosto.

jh@manzano.li

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