Ai, meu hífen!

José Horta Manzano

Não se assuste, que não é pilhéria. Ano velho se escreve assim, bonitinho, separado, cada um no seu canto. Já ano-novo pede hífen. É casamento forçado, goste ou não goste. Sabe Deus por quê.

Boa-vinda, mais usada no plural (boas-vindas) pede hífen. É saudação reservada pra quando alguém volta de viagem. Na hora da partida, se quiser desejar boa ida, (=boas idas) ou um simples boa viagem, esqueça do hífen. Vai tudo separado.

Se quiser elogiar uma peça de teatro e recomendá-la a amigos, escreva boa peça, sem sombra de hífen. Boa-peça (com hífen), expressão popular brasileira acolhida por dicionários, designa o contrário: um indivíduo mau-caráter, que ninguém recomendaria.

Falando em mau-caráter, repare que a locução leva aliança de casamento: vai com hífen obrigatório. Já o contrário, aquela boa pessoa a quem a expressão bom caráter se aplica em cheio, vai aparecer solteira. O bom e o caráter vão lado a lado, mas sem aliança. É concubinato explícito.

São caprichos de nossa língua. Alguns exemplos são nada mais que problema de grafia. O mais das vezes, o que falta mesmo é paralelismo. São problemas que o AO90, reforma manquitola feita de má vontade 30 anos atrás, não ousou enfrentar. Uma pena.

Nota
Nem boa vontade nem má vontade, seu contrário, pedem hífen. Está aí um caso em que o paralelismo foi respeitado. Nem tudo está perdido, minha gente!


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