Obter alta

José Horta Manzano

Artigo do Estadão traz notícias da saúde do prefeito de São Paulo, um jovem de 39 anos acometido por doenças que não costumam aparecer em gente de tão pouca idade. São coisas da vida.

A nota diz: ”A expectativa era de que ele poderia obter alta do hospital nesta segunda, 4, mas a detectação deste novo coágulo deve adiar sua ida para casa”.

É o tipo de frase que acaba com a vontade de ler o artigo até o fim. Sozinha, ela me basta pra botar alguns reparos. Vejo lá problemas de gramática, de adequação vocabular e – por que não dizê-lo? – de birra minha. Vamos aos reparos.

A expectativa era de que ele poderia
É modismo descartável. Trata-se do abuso de «de que» em detrimento do infinitivo pessoal, marca registrada de nossa língua. Errada, a sentença não está. Mas ficaria mais limpa assim: A expectativa era ele poder.

Obter alta
Não se ‘obtém’ alta. Recebe-se alta. A obtenção implica uma dose de merecimento. Do aluno que, depois de estudar muito, tirou nota alta, diz-se que obteve bom resultado. Em matéria de saúde, nem sempre o esforço do paciente dá resultado. Quem sai da hospitalização depois de autorizado pelo médico é porque recebeu alta médica, independentemente de esforço. Alta é o oposto de baixa. Recebe-se alta. Dá-se baixa.

A detectação deste novo coágulo
Nunca tinha ouvido falar em «detectação». Confesso que, surpreso, perguntei a meus botões: «Detectação? Será que a língua passou a acolher substantivo novo?». Verificação feita, nenhum dicionário – nem o Volp – abona o nome «detectação». A única forma válida é nossa velha conhecida detecção. Dizer «detectação», visto que o termo, além de inútil, não está dicionarizado, é erro descartável.

Adiar sua ida para casa
Esta é birra. No meu entender, quem está no hospital, geralmente está louco pra voltar pra casa. Ideologicamente, o paciente mora na própria casa e está passando uma temporada no hospital. Adiar a volta para casa é o que descreve melhor a situação. Gramaticalmente, não há erro em dizer «ida para casa». Acontece que «volta» soa mais agradável ao ouvido. Do paciente e da família também.

Aquele que abandona a rotina para uma situação extraordinária, vai:
ir de férias, ir de viagem, ir para o hospital.

Aquele que volta à rotina depois de ter atravessado situação extraordinária, volta:
voltar de férias, voltar de viagem, voltar do hospital.

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