O marketing e o bom senso

José Horta Manzano

Para vender bem um produto, convém expor suas qualidades ao público-alvo. É o primeiro passo do bom marqueteiro. A informação pode ser passada com ar professoral, distante. Fica imponente, mas periga ser fria e pouco eficaz. Melhor será estabelecer proximidade com o consumidor. Mais que isso: uma cumplicidade, sempre que possível.

Na hora de vender um sabonete, por exemplo, o anunciante pode dizer: «Compre meu sabonete, pois é o melhor da praça, feito com azeite de dendê orgânico e óleo de mamona diet». É esclarecedor, mas cria um fosso entre quem vende e quem compra. Melhor criar cumplicidade entre os dois. Assim, por exemplo: «Oi! Eu sou Maria da Silva, atriz de novelas. Minha pele andava feia, ressecada. Eu já não sabia mais o que fazer quando descobri este sabonete. Impressionante! Foi-se a secura! Minha pele ficou igualzinha à de um recém-nascido. Experimente, que eu garanto».

Quem conseguir passar a impressão de que uma amiga aconselha a outra certamente terá mais sucesso do que se a venda for feita com cara de aula. Esse princípio vale para qualquer produto – desde que usado com moderação e bom senso.

Nesta época de fim de ano, o jornal Estadão teve a boa ideia de criar um podcast, difundido em episódios, para dar mão forte aos que se preparam pra enfrentar exame vestibular. Quando é hora de se preparar para esse tipo de prova, não há que perder de vista a diglossia(*) em que vivemos mergulhados, essa confusão mental que acaba transformando redação de Português em calvário.

É que passamos a vida nos exprimindo em ‘língua de casa’, um dialeto em que nos sentimos à vontade. Eis senão quando, de repente, na hora do exame, temos de mudar de estação e utilizar outro dialeto, a chamada ‘norma culta’, que não nos é familiar. Daí a insegurança e o enrosco.

Os marqueteiros do jornal precisavam dar título à série de podcasts. No afã de estabelecer proximidade com o público-alvo, esqueceram de que os exames têm de ser feitos em ‘norma culta’, e pespegaram um título em ‘língua de casa’: «Se liga no vestibular».

Podcast Estadão: “Se liga no vestibular”

Seria excelente caso estivessem vendendo sabonete. Mas exame de Português não é sabão. Numa prova em que será medido o desembaraço de cada candidato no trato da ‘norma culta’, é péssima ideia ter misturado dialeto caseiro.

Atenção, vestibulandos e outros examinandos! Na hora da prova, que ninguém se atreva a imitar o linguajar relaxado do podcast. Não ouse começar uma frase com pronome oblíquo. Vai perder pontos.

(*) Diglossia
Muitos povos vivem em situação de diglossia. É quando convivem, no mesmo território, duas ou mais línguas, dialetos ou falares (em geral semelhantes, mas não obrigatoriamente), sendo que um deles se destaca e é mais prestigiado que os demais. Daí nasce uma insegurança linguística que pode infernizar a vida dos falantes. É o caso do Brasil. Há uma ‘norma culta’, ensinada a todos na escola mas nunca utilizada no círculo familiar. Ela convive com uma ‘língua de casa’, dialeto pouco prestigiado e considerado ‘errado’ apesar de ser conhecido e utilizado por todos.

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